Teus olhos navegam bem perto
Enquanto teu cheiro passeia por mim
Vem vento
Abraçar nosso minuto lento
Que mais parece eternidade
Quando teu olho seduz o tempo
E inventa nossa história sem fim
Pra sonhar
Imaginações e anseios
que talvez nunca se realizem
mas quem disse que elas já não acontecem?
mesmo que em nossos sonhos
e filmes
você e eu e nosso planeta distante.
Pra sonhar
Marcelo Jeneci
“Quando te vi passar fiquei paralisado
Tremi até o chão como um terremoto no Japão
Um vento, um tufão
Uma batedeira sem botão
Foi assim viu
Me vi na sua mão
Perdi a hora de voltar para o trabalho
Voltei pra casa e disse adeus pra tudo que eu conquistei
Mil coisas eu deixei
Só pra te falar
Largo tudo
Se a gente se casar domingo
Na praia, no sol, no mar
Ou num navio a navegar
Num avião a decolar
Indo sem data pra voltar
Toda de branco no altar
Quem vai sorrir?
Quem vai chorar?
Ave maria, sei que há
Uma história pra sonhar
Pra sonhar
(…)”
Reinventar
É meu anseio
Fazer das cores, novos bordados
Músicas antigas, remixes de um novo sol.
Mudar, mas não totalmente
Não se deve mexer na essência
A sua raiz é a sua força, é o seu eu.
Quero juntar os meus sentidos
E provar dos novos gostos
Texturas, sotaques e cheiros de chuva.
E ao aliciar novas e velhas formas de pensar
Só espero que minha ânsia de renovação
Demore um pouco para recomeçar.
[Figura adaptada do livro especial da minha infância O Barquinho Amarelo de Iêda Dias da Silva]
Abismo

O pior é não conseguir arrancar um pedaço do tempo e expurgar daqui de dentro. É mais fácil lidar com a face negra dos outros que encarar a sua própria.
É como a cada acordar, ao se olhar no espelho, uma mancha negra aparecesse em sua face. A cada dia, a mancha se espalhasse. Encara-se a angústia de não reconhecer mais quem é você.
Entregaram-lhe uma flor e você correspondeu com um tiro no peito. Encarar a sua face negra é olhar para as suas mãos segurando uma arma e a destruição de uma vida à sua frente. Não adianta o arrependimento, a não intenção de ter feito: a vida foi destruída e só você foi responsável. Como lidar com o sangue no chão? Como lidar com o desespero de querer sumir, de querer arrancar um pedaço de si?
É mais fácil corrigir o que está fora. Estilhaçar o espelho não vai mudar os seus olhos. Os passos pra frente não mudarão o caminho que se deixou pra trás. Nenhuma lágrima lava a alma.
Arde aqui a escuridão daquilo que eu mesma destruí.
Fome
O que é melhor pra mim? Viver a MINHA vida. Buscar as coisas que eu quero pra mim, descobrir o mundo com todas suas vitórias e fracassos e com os meus próprios passos. Ora, ser o que eu sou. E o que eu sou? Sou essa pessoa que não tem medo de ir atrás do que quer.
Cansei de viver às sombras. A gente nunca faz ou se torna algo sozinho. Mas, eu quero escolher meu próprio caminho. Sem esperar pelas decisões do outro. Cansei de só ter algo depois que outra pessoa acha que eu devo ter. Eu quero arriscar minha vontade e a opinião dos outros é válida sim, mas a decisão final eu quero pra mim, é minha.
Não quero ser egoísta. Não vivo sozinha, não conquistei nada sozinha. Sou eternamente grata pelas mínimas coisas que já fizeram por mim, muitos nem mesmo sabem que fizeram. Preciso e quero muitas pessoas por perto; mas não é a distância geográfica que me fará parar no tempo e me acorrentar no marasmo de mim mesma.
Eu quero essas calçadas. Eu quero esse vento. Eu quero esse calor, o frio, tudo o mais que a vida pode nos dar.
Dinheiro, profissão. Não é só isso. Não estou só buscando preencher um currículo, quero preencher minha vida, meu espírito, minha vontade, minha fome de ir.
Estou sorrindo pra vida e nada está me segurando. Eu não estou fugindo. Estou me encontrando.
Careta de beijo de peixe
Gosto de você no seu jeito mais normal de ser. Seu charme encanta, mas é do seu cabelo embaralhado de sono que eu gosto mais. Do seu olho inchado ao acordar. Do seu cheiro de um dia inteiro de trabalho.
É do seu sorriso tímido. Dos braços cruzados e da testa enrugada. Do olhar de reprovação ou tentando me ignorar. O suor das mãos nervosas, o semblante de tensão sem saber me abraçar.
Seu jeito de falar com os cachorros, de chamar a mãe, de fazer dengo por um pedaço de bolo. O jeito de cantar errado ou de não saber o que me dizer. O jeito de dormir, de respirar, de me sentir.
É do seu jeito sem máscara que eu gosto, daquela foto mal tirada, do olhar assustado, da boca cheia de pão. É engraçado pensar assim, não que eu não goste de você na sua melhor roupa e com o seu melhor perfume. Mas o meu gostar é tão grande que não importa se você faz careta de beijo de peixe. O meu sorriso já é teu. E não há quem tire.
I also can see what you see

Posso sentir tua euforia ao ouvir minha voz
Posso sentir a saudade no teu olhar
A vontade de me ter
Ao teu lado, perto do teu peito
Perto dos teus braços que me puxam para o teu beijo
Olhe nos meus olhos
Com as mãos entrelaçadas nas minhas
Deixe o mundo girar e se perder
E sinta que tudo isso eu também sinto por você
Madness
É como o ar daquela música que nos faz fechar os olhos e flutuar em pensamentos
Como o calafrio que percorre o corpo inteiro em câmera lenta
Como a respiração pausada e o silêncio que nos faz sentir o sangue nas veias
É o seu olhar
Que adentra meu mundo
Sorrateiro, invade, se enterra
Lentamente me acho nas nuvens, nada vejo, nada penso
Apenas sinto
Como um pedaço de papel perdido no vento, contornando o nada
Como um piscar de olhos de sono lento
Como ver a morte prenunciando a nova vida
Sentir o mundo girando vagarosamente
E a vontade apenas de continuar caindo
Leve, doce, breve
Vento
Eu sempre quis ir.
Pra onde e por que eu não sei.
Não sei que vontade é essa. Nasci com ela. Sempre quis ir embora, traçar um caminho, fazer escolhas pelo acaso, sem planejar muito e sem saber no que pode dar. Se eu vou quebrar a cara, se vão ser as escolhas erradas, isso não importa nem um pouco. Eu quero tentar.
Eu quero quebrar esse vidro que já está me sufocando há muito tempo. Quero conhecer as calçadas desse mundo com meus próprios passos.
Não preciso de um motivo. Não preciso de nada à minha espera do outro lado da rua. E eu não quero nem saber o que se encontra do outro lado da porta. Quando eu abrir, eu vou saber. E daí tudo pode acontecer.
Sentido
Eu tive um sonho.
Alguém estava morto dentro da minha casa. E ninguém sabia.
Enquanto eu perambulava, vivia minhas coisas, alguém dava o último suspiro. E só depois de eu já ter entrado no quarto onde o alguém estava morto, me olhar no espelho sem ao menos olhar para o alguém, e ter saído, é que deram conta da morte.
Quando souberam da morte, deram um jeito com o corpo. Eu não queria nem olhar, pois não gosto de ver corpos sem vida. Mas, enquanto isso, andando pela casa, achei o bebê do alguém. O bebê órfão. E comecei a cuidar dele. Ou tentar. Pois o bebê era totalmente difícil. Antes de acordar do sonho, eu dava o bebê para outra pessoa tentar dar um jeito, pois eu mesma não conseguia cuidar.
Acordei às 5h da manhã desse sonho estranho. E agora que escrevo sobre ele, uma hora depois, as coisas parecem se entrelaçar e fazer sentido.
O que eu penso? É que somos responsáveis, ou deveríamos. Há muita coisa à nossa volta e que não nos damos conta, ou não queremos. Fechamos os olhos, tropeçamos nas coisas que mal olhamos, só temos tempo para nós mesmos, para o nosso espelho. Não é preciso ir tão longe, não é preciso se sentir responsável pela fome das crianças da rua 18 da Angola. As coisas estão mais perto, estão na sua própria casa, são os seus próprios amigos que tentam estar do seu lado e você não enxerga.
Não queremos ser responsáveis. Passamos a bola para outro. Porque é difícil, porque é feio, porque não está de acordo com nossas frescuras, e o mais fácil é passar para outro, fechar os olhos e continuar perambulando sem sentido. O que não nos damos conta é que tudo o que passa por nós é para nos dar um sentido. As coisas morrem ao nosso lado, mas deixam vestígio. Não adianta fugir, a ferida pode curar por baixo da gaze, mas uma hora você vai encarar a cicatriz.
São 6h. Um novo dia nasce. Faz sentido para você?







