Reinventar

É meu anseio
Fazer das cores, novos bordados
Músicas antigas, remixes de um novo sol.
Mudar, mas não totalmente
Não se deve mexer na essência
A sua raiz é a sua força, é o seu eu.
Quero juntar os meus sentidos
E provar dos novos gostos
Texturas, sotaques e cheiros de chuva.
E ao aliciar novas e velhas formas de pensar
Só espero que minha ânsia de renovação
Demore um pouco para recomeçar.

[Figura adaptada do livro especial da minha infância O Barquinho Amarelo de Iêda Dias da Silva]

Abismo


O pior é não conseguir arrancar um pedaço do tempo e expurgar daqui de dentro. É mais fácil lidar com a face negra dos outros que encarar a sua própria.
É como a cada acordar, ao se olhar no espelho, uma mancha negra aparecesse em sua face. A cada dia, a mancha se espalhasse. Encara-se a angústia de não reconhecer mais quem é você.
Entregaram-lhe uma flor e você correspondeu com um tiro no peito. Encarar a sua face negra é olhar para as suas mãos segurando uma arma e a destruição de uma vida à sua frente. Não adianta o arrependimento, a não intenção de ter feito: a vida foi destruída e só você foi responsável. Como lidar com o sangue no chão? Como lidar com o desespero de querer sumir, de querer arrancar um pedaço de si?
É mais fácil corrigir o que está fora. Estilhaçar o espelho não vai mudar os seus olhos. Os passos pra frente não mudarão o caminho que se deixou pra trás. Nenhuma lágrima lava a alma.
Arde aqui a escuridão daquilo que eu mesma destruí.

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